Alterações climáticas – O que é normal, o que é um episódio “histórico” e outras informações…

Antes de começar quero dizer que este é um artigo mais longo que o habitual. Quero aqui falar sobre várias coisas e vou já enumerar
 
1 – Calor extremo – Junho – O que é normal, o que não é, como se medem as temperaturas, e já ocorreu alguma vez algo assim?!
 
2 – Aquecimento global\crise climática: Porque é que continua a haver tantos negacionistas, tanta gente que prefere acreditar em lenga-lengas de “vai ficar tudo bem” ou “isso é tudo inventado para mais impostos” em vez de ouvirem a ciência?
 
3 – Esta página é diferente de muitas outras – há mais de um ano alterei o subtítulo da página, se lhe quiserem chamar assim, para “Meteorologia e Clima” porque aqui falo de ambas as coisas – Meteorologia e Clima são coisas diferentes… Digamos que sem entrar em detalhe meteorologia é o tempo que vai fazer a curto\médio prazo, o clima é mais a longo prazo… E por isso aqui falo, sem medos, sem medo de ser criticado, sobre as consequências que podem advir de todas estas alterações – não é para assustar, é para realmente mostrar o que nos espera…
 
4 – Gostem ou não gostem, as 84 mil pessoas, à data de escrita do artigo, que seguem a página a Luso Meteo vai continuar SEMPRE a alertar, avisar, informar, e fazer-se ouvir em relação às alterações climáticas, sempre baseado na ciência, e não em coisas que não têm qualquer prova – apenas algumas pessoas que se querem fazer ouvir no Youtube e algumas páginas de Facebook, porque estão frustradas com a situação atual e então, como já referi até as poeiras já são alvo de desconfiança, com alguns a dizerem que são lançadas por aviões… É de EXTREMA IMPORTÂNCIA consciencializar para o que aí vem – na realidade, já chegou…
 
5 – O que esperar no futuro, então?
 
Vamos então começar pelas respostas…
 
Começando pelo início, esta onda de calor, em Junho, em Portugal Continental, foi bastante pouco habitual, embora não possa dizer que inédita na altura do ano, pelo menos na maioria dos locais… Tendo começado antes de dia 10 de Junho, com valores acima de 40 graus localmente, tendo tido 6\7 dias de duração, e tendo levado a um máximo de 42,3º foi de facto invulgar – se foi inédita? Possivelmente não, mas é cada vez mais recorrente… Estas ondas de calor mais frequentes e mais intensas levam a mais mortalidade – há muitos anos que estamos a ser alertados para isso – ora a DGS já confirmou que o calor foi responsável por um substancial aumento da mortalidade nos últimos 7 dias – e felizmente o calor mais extremo não chegou devido a poeiras, podia ter sido pior… já falo sobre as poeiras, outro tópico “polémico”, mas antes disso vamos para Espanha e França… (depois da imagem com as máximas registadas no pico da onda de calor em Portugal)
 
Espanha leva também 7 dias de onda de calor, com 4\5 dias em que 43º já foram registados, em vários pontos diferentes, e hoje, dia 17 de Junho, à hora de escrita deste artigo, tinham sido registados 44,2º em Jaén (imagem abaixo), e é possível que a temperatura tenha ido ainda mais acima, perto dos 45 graus. É inédito? Bem, para a altura do ano, em MUITOS locais, sim, é inédito desde que fazemos medições…
 
E se formos para França aqui encontramos a maior anormalidade – temperaturas de 45º previstas Sábado, dia 18 de Junho (Artigo será atualizado com os valores reais no Domingo) – na Costa Ocidental… Ora para além de ser fora de época é ainda EXTREMO do ponto de visto de máximos – podendo efetivamente quebrar dezenas de recordes regionais, e talvez o recorde nacional, ainda antes do solstício de Verão… A onda de calor em França de 2019, finais de Junho levou a 46º, no Sul, esta onda de calor tem a mesma previsão, praticamente, mas no Oeste… Levou a 1500 mortes nessa altura… Ora o Oeste, estando mais perto do mar, e a uma latitude mais elevada, claramente é menos propenso a tais valores – mas eles vão ocorrer, infelizmente… Para contexto, em 2019 Bordéus bateu o seu recorde histórico com 41,2º… Para sabermos se é inédito ou não basta consultar a previsão para este Sábado pelo modelo AROME de alta resolução da Méteo-France que prevê 44\45 graus nesta cidade… O recorde deve ser quebrado por 3-4 graus… não falamos do recorde de Junho, mas de qualquer mês, desde que há registo, em 2019… As casas em França estão mais preparadas para o Inverno que o Verão, e isto é altamente invulgar – logo é mais difícil suportar – e mais mortes, infelizmente, serão inevitáveis… Por isso respondendo ao ponto número 1, sim algum calor intenso já aconteceu no passado antes do solstício de Verão, dia 21 de Junho, e em alguns casos os valores e a duração não são inéditos, particularmente em Portugal, já em Espanha e França situação diferente, com alguns valores de facto INÉDITOS, e RECORDE, logo a meio de Junho
NOTÍCIA QUE DÁ CONTA DO RECORDE DE BORDÉUS (41.2º) em 2019…
PREVISÃO MODELO AROME (Météo-France) (43-45º) Bordéus, dia 18 de Junho 2022
 
Antes de partir para o ponto número 2 quero falar ainda sobre como se mede a temperatura, e isto é uma resposta rápida: Sensor a 2m de altura, protegido por um radiation shield que impede o sol de entrar. Só assim o valor é válido. Sensores mais próximos do solo, ou ao sol vão dar valores MUITO mais elevados, assim como carros, mesmo que à sombra também dão… Daí muita gente dizer “ah mas já estiveram 50º aqui no dia X do ano Y”… Não, em Portugal nunca passamos os 47º oficialmente… E mesmo esse valor foi isolado, mais que 43º é MUITO RARO
 
Partimos agora para o ponto número 2…
 
Continuamos com imensos negacionistas… Imensas pessoas que julgam que é tudo normal, que são ciclos, e ainda aqueles que dizem que esse calor já acontecia no passado
 
Então aqui entramos em várias questões… NÃO É NORMAL, pois como referido no ponto 1 estamos por vezes com situações que batem recordes históricos, e os ciclos não são de meia dúzia de anos, mas sim de milhares… Sim, o calor já acontecia no passado, mas se verificarmos os recordes de calor 90% ou mais foram nos últimos 20 anos… Por outro lado 90% ou mais dos recordes de frio foram há mais de 20 anos… É possível que em 1900 (Exemplo) se tenha chegado aos mesmos 42º que este ano chegamos em princípios de Junho, no entanto a questão aqui é A FREQUÊNCIA… eventos esporádicos de 100 em 100 anos ocorrem agora todos os anos… Trazendo consequências nefastas, seja com temperaturas muito elevadas, secas prolongadas ou chuvas torrenciais – várias situações de chuva na Europa no ano passado foram considerados eventos que ocorrem 1 vez em cada 100 anos… e depois na semana seguinte estava a ocorrer novamente, o que só mostra a incrível velocidade com que tudo está a ocorrer – e vai continuar a piorar… padrões atmosféricos mais estáticos com abrandamento das correntes marítimas entre muitos outros fatores tendem a exacerbar este efeito de tempo mais “estático” e a tornar os fenómenos extremos mais frequentes e prolongados
 
Não há nenhuma conspiração nem agenda para nos levar a acreditar no aquecimento global – ele é real… Os governos se quiserem subir os impostos fazem-no com muitas outras coisas, não é necessário isso… Não podemos viver no mundo da fantasia e pensar que está tudo bem, nem viver numa bolha e pensar que só porque “na minha terra” não houve nada disso as coisas não estão a acontecer…
 
Na Luso Meteo não há medo de falar aquilo que é a realidade, nem medo de assustar, porque só há uma realidade – e é essa a realidade que temos de conhecer – e fazer de tudo para a melhorar – e todos temos um papel… todos podemos fazer do mundo um mundo mais sustentável, com as nossas escolhas – desde o que consumimos, o que compramos, o que gastamos… Precisamos mesmo de ter um telemóvel novo a cada ano só porque X modelo tem uma funcionalidade que o outro não tem e que se calhar usam 1x na vida? Será que não conseguimos reduzir o consumo energético, se pensarmos um pouco e prioritizarmos aquilo que realmente precisamos? Podemos fazer muito para poupar, se fizermos escolhas acertadas e não entrarmos em “modas”, porque essas são feitas mesmo para impelir à compra, que gera mais poluição, e mais recursos gastos – e esses recursos não são infinitos
 
Podemos não ser os únicos responsáveis pelo aquecimento global, mas somos uma grande parte, por isso é essencial cortarmos no consumo – só assim podemos melhorar a situação
 
Sobre as poeiras… Tenho lido alguns comentários na Internet que de facto provam que neste momento, depois da pandemia e muitas outras coisas as pessoas já desconfiam de tudo… Mas as poeiras sempre existiram – estão agora mais presentes devido às alterações climáticas, sem dúvida, e, principalmente nos últimos 5 anos aumentaram e muito de intensidade e frequência, e em especial nos últimos 2 anos… Ora estes 2 anos foram caracterizados por várias cut-off lows a Oeste, com circulação propícia para que isto acontecesse, com transporte de poeira diretamente do Norte de África… Se temos um deserto em África bem perto (para quem não sabe a pouco mais de 300kms do Algarve já podemos encontrar África, e a pouco mais de 800kms o deserto do Sahara, o equivalente à distância entre os pontos mais distantes em Portugal, extremo Sudoeste e extremo Nordeste…) não é difícil perceber que com a expansão do deserto para Norte as poeiras chegam cá com muita facilidade…
 
No futuro podemos esperar mais e mais eventos climáticos extremos – até 2027 existe mais de 50% de probabilidade de termos a ano mais quente de sempre, e pela primeira vez tocarmos a barreira que não podemos ultrapassar, 2 graus de aquecimento… Honestamente creio que tal acontecerá já nos próximos 2\3 anos, com El Niño a regressar, e consequente subida da temperatura global, e máximo solar, também
 
Assim tudo temos de fazer para minimizar o que aí vem – começar por tentar viver mais sustentavelmente, pensar em formas de adaptar ao que aí vem, e mentalizarmo-nos que não podemos viver como até aqui – é possível continuarmos a viver uma vida confortável, se calhar até melhor do que temos atualmente, mas é preciso uma mudança drástica de mentalidades…
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